Você abriu O Vermelho e o Negro, ou está para abrir, e a pergunta é razoável: vale a pena? A resposta do Nous é que vale, com uma condição. O romance de Stendhal tem duas partes em que o leitor costuma travar, e quem as atravessa com um mapa encontra o livro andando. A aula não dá nota ao romance. Faz algo mais útil: diz onde ele pede paciência e o que fazer quando ela acabar.
Para quem o livro é
A aula abre com a frase que define o leitor natural do romance: se você já viveu um momento da vida que era como passar numa prova, este livro é sobre você. Julien Sorel é um rapaz que trata a vida inteira, e até o amor, como uma campanha a vencer, e o que o livro mostra é o que acontece nas raras horas em que ele deixa de fingir. Quem gosta de ler devagar, parando em cada cena, está no terreno certo. O resumo, na ordem do livro, está em Do que trata O Vermelho e o Negro, de Stendhal.
Primeira trava: as crônicas de Verrières
Os primeiros capítulos parecem crônica de cidade pequena: o prefeito, o padre, a serraria. Dá vontade de pular. A aula pede o contrário: não pule, porque é ali que a armadilha se monta.
A imagem não é explicada, mas o livro mostra o que se monta ali. Verrières é uma cidade em que o narrador entrega a régua em duas palavras maiúsculas, dar lucro. Nela, Julien, filho de um carpinteiro dono de serraria, lê escondido e apanha do pai, e o livro que ele mais preza, o Memorial de Santa Helena, cai no riacho (Livro I, cap. 4, tradução de Raquel de Almeida Prado, Penguin Companhia). Ali ele faz a conta fria que termina em "É preciso ser padre" (cap. 5), vive a noite do jardim em que esquece de fingir (cap. 9) e grita no bosque que ganhou uma batalha (cap. 10).
Repare no que isso significa para quem pula. Várias das passagens que a aula cita, a conta do padre, o jardim, a batalha, estão nesses capítulos que parecem não levar a lugar nenhum. Quem salta Verrières chega ao resto do livro sem a regra com que Julien vê o mundo, e vai achar estranhas as escadas e as pistolas que vêm depois. Quem a lê já sabe que, para ele, nada é só o que parece: um aumento de salário é uma batalha ganha. Um jeito de atravessar a parte lenta é ler cada personagem pela régua do narrador: o que isso rende, e a quem?
Segunda trava: o vai e volta de Mathilde
No segundo livro aparece um vai e volta amoroso: agora eu te amo, agora não te amo mais, mas será que já me esqueceu? E muita gente fecha o livro ali.
O conselho da aula é mudar a pergunta que se faz ao texto. Quando chegar nessa parte, leia como uma batalha, e não como um romance de amor. Em cada capítulo, pergunte quem está ganhando. E você vai ver que é exatamente assim que os dois se leem.
O livro sustenta essa leitura. Mathilde, a filha do marquês de La Mole, entediada e orgulhosa, decide amar Julien como quem escolhe um papel, e pede que ele suba até o quarto dela, de escada. Julien sobe de pistola na mão, mais assustado do que apaixonado, desconfiado de uma armadilha. Um príncipe russo lhe ensina a receita para conquistá-la: fingir que não se importa, cortejar outra mulher, copiar cartas de amor entregues prontas. É o que o livro chama de política russa, que não é política de Estado, é política de sedução. E o narrador resume a diferença entre as duas mulheres de Julien: a sra. de Rênal encontrava razões para fazer o que o coração lhe ditava, e Mathilde, a moça da alta sociedade, só deixa o coração se comover depois de encontrar boas razões para que se comova (Livro II, cap. 30).
Entendida assim, a oscilação deixa de ser indecisão sem fim e passa a ser jogada. Cada "agora te amo, agora não" é um movimento de dois jogadores que não sabem baixar a guarda. Leia o capítulo, pergunte quem avançou e quem recuou, e o que parecia enrolação ganha direção.
Por que atravessar as duas
A aula resume o ganho numa frase curta: com esse mapa na mão, o livro anda. E há um motivo para não fechá-lo no meio. A mesma lógica de campanha que organiza Verrières e o salão de Paris chega a um ponto em que a vitória não dura dois dias: Julien recebe a patente de tenente, o vermelho, a farda que tanto queria, e dois dias depois já calcula que precisa de mais (Livro II, cap. 35). Mais adiante, na cela, o livro vira do avesso e Julien perde a ambição de uma vez. Quem fechou o romance em Paris perde justamente essa mudança de direção, que está em O final de O Vermelho e o Negro.
Um teste simples: o primeiro capítulo
O convite da aula é modesto. Se o vídeo deu vontade de ler o livro, leia o primeiro capítulo, aquele que parece não levar a lugar nenhum, e decida depois. E, se você ainda não escolheu a edição, a que acompanha a aula, com as mesmas palavras das citações, é a da Penguin Companhia, assunto de Qual tradução de O Vermelho e o Negro ler?.
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Ver as leituras recomendadasPerguntas frequentes
O Vermelho e o Negro é bom?
A aula do Nous não dá nota ao livro, mas aconselha lê-lo, e diz que quem já viveu um momento da vida como se fosse uma prova a passar vai se reconhecer nele. O que a aula acrescenta é um mapa das duas partes em que o leitor costuma travar, as crônicas de Verrières e o vai e volta amoroso do segundo livro, e com esse mapa, diz ela, o livro anda.
O Vermelho e o Negro é difícil de ler?
Tem duas partes que pedem paciência. No começo, os capítulos parecem crônica de cidade pequena, com o prefeito, o padre e a serraria, e dá vontade de pular. No segundo livro vem um vai e volta amoroso entre Julien e Mathilde, e muita gente fecha o livro ali. Fora delas, o enredo corre.
Posso pular os primeiros capítulos de O Vermelho e o Negro?
A aula aconselha que não. Os capítulos de Verrières parecem não levar a lugar nenhum, mas é ali que a armadilha se monta: a vida de Julien como campanha, o livro de Napoleão escondido, a conta que termina em "é preciso ser padre".
Como ler o vai e volta de Julien e Mathilde?
Como uma batalha, e não como um romance de amor. Em cada capítulo, pergunte quem está ganhando. A aula diz que é exatamente assim que os dois se leem, e o próprio livro dá a chave: Mathilde só deixa o coração se mover depois de encontrar boas razões para que ele se mova.
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Aula de origem: O Vermelho e o Negro, de Stendhal