Do que trata O Vermelho e o Negro, de Stendhal

Aula de origem: O Vermelho e o Negro, de Stendhal

O Vermelho e o Negro, de Stendhal, trata de um rapaz pobre e brilhante, Julien Sorel, que tenta subir na vida numa França que acabou de fechar as portas honestas e que transforma tudo, inclusive o amor, em campanha militar. A pergunta que o romance deixa é simples de dizer e difícil de responder: o que nós perdemos quando passamos a vida inteira tentando provar o nosso valor? Este artigo conta o livro na ordem em que ele acontece, explica o que o vermelho e o negro do título significam e mostra a época que torna Julien compreensível.

A França que fechou a porta

Para entender Julien, é preciso entender a França do tempo dele. Poucos anos antes, sob Napoleão, o filho de um camponês podia virar general aos trinta anos: bastavam coragem e talento. Napoleão é vencido de vez em 1815, os reis voltam ao trono e a regra muda. Os bons lugares passam a depender de nascimento, de dinheiro e de proteção.

É o pano de fundo que o próprio livro assume. Ele estava saindo da gráfica no verão de 1830, quando uma revolução derrubou o rei da França, e o subtítulo da edição é Crônica de 1830. Stendhal não escreve uma fábula sobre a ambição em geral: escreve sobre um rapaz concreto, num momento concreto, em que o talento já não basta.

O que significam o vermelho e o negro

O livro nunca explica o título. A leitura que ilumina o romance inteiro é esta: o vermelho é a farda, o caminho que Napoleão usou para chegar ao poder e que se fechou. O negro é a batina, o caminho que sobrou.

E Julien faz essa conta friamente, logo no começo:

"Hoje em dia vemos padres de quarenta anos recebendo cem mil francos de vencimentos, ou seja, três vezes mais do que os famosos generais de divisão de Napoleão. [...] É preciso ser padre." (Stendhal, O Vermelho e o Negro, Livro I, cap. 5, edição Penguin Companhia, tradução de Raquel de Almeida Prado.)

Repare que ele não diz que sente vocação. Diz que é preciso. É dessa conta que nasce o resto: um rapaz que escolhe, entre a farda e a batina, a que a época deixou aberta. A farda, o vermelho, só chega muito mais tarde, e dura pouco.

O resumo, na ordem do livro

Verrières: a guerra começa

Verrières é uma cidadezinha do interior da França, e o narrador entrega a régua dela em duas palavras, escritas em maiúsculas: dar lucro. Julien tem dezoito ou dezenove anos, é o filho mais frágil de um carpinteiro dono de serraria e é desprezado pelo pai e pelos irmãos. Em vez de trabalhar, lê escondido. Um dia o pai sobe, bate nele, e o livro cai na água do riacho:

"Olhou tristemente o riacho onde caíra o livro; de todos, era o que mais prezava, o Memorial de Santa Helena." (Livro I, cap. 4)

O Memorial de Santa Helena é o relato do exílio de Napoleão, o livro de cabeceira de Julien. Ele guarda, escondido no colchão, um retrato do imperador. O prefeito, o senhor de Rênal, o contrata como preceptor dos filhos, e o rapaz entra naquela casa como quem entra em território inimigo. Quando arranca um aumento do patrão, corre para o bosque:

"Ganhei uma batalha, disse a si mesmo tão logo se viu no bosque e longe do olhar dos homens. Ganhei uma batalha!" (Livro I, cap. 10)

Não foi um aumento, foi uma batalha. Para Julien, a vida inteira é uma campanha, e a mais difícil acontece dentro da casa, com a dona dela, a senhora de Rênal.

O jardim: a noite em que ele esqueceu de fingir

Debaixo de uma tília, Julien prometeu a si mesmo que, quando o relógio do castelo batesse dez horas, ou seguraria a mão da sra. de Rênal, ou daria um tiro na cabeça. Não é paixão, é uma batalha que ele decidiu vencer. O relógio bate, ele segura a mão, ela a retira, ele segura de novo, e a mão fica.

Então acontece o que ele não tinha planejado: o rapaz que passou o dia calculando relaxa. O romance diz:

"[...] falou, esqueceu de fingir, pareceu um homem amabilíssimo às duas amigas que o escutavam." (Livro I, cap. 9)

Mas, no mesmo capítulo, Julien precisa queimar o retrato de Napoleão para que ninguém o descubra, e pensa: "[...] minha reputação é o meu único bem, é só por ela que vivo… E ainda assim, que vida, meu Deus!" (Livro I, cap. 9) É esse o preço: quem vive em campanha não pode baixar a guarda nem no próprio jardim.

O seminário e a primeira escada

Julien e a sra. de Rênal se tornam amantes. Uma carta anônima denuncia o caso ao marido, e o cura da cidade, o abade Chélan, manda o rapaz para o seminário de Besançon. Ali Julien descobre uma coisa que o deixa sem chão: a inteligência, a única arma que tinha, é perigo, e ser o primeiro da turma é suspeito. Uma cara de fé cega vale mais do que saber. Os colegas lhe dão um apelido por causa da lógica com que ele argumenta: Martinho Lutero.

É assim que Stendhal retrata o seminário: a hipocrisia deixa de ser um truque de província e vira método, vira formação. E o fundo não é inventado: na França daqueles anos a Igreja tinha voltado ao centro do poder, e a carreira de muita gente dependia de uma associação de padres e leigos chamada Congregação. Essa história, de como a Igreja atravessou a Revolução e voltou ao poder, está no guia dos dez volumes da História da Igreja de Cristo, de Daniel Rops.

Antes de partir para Paris, Julien volta escondido a Verrières, compra uma escada de um camponês e sobe de madrugada até a janela da sra. de Rênal. Ela o recebe. Mas o narrador avisa o que ele fez daquela noite: se a volta aos sentimentos ternos tivesse chegado um pouco antes, teria sido uma felicidade divina; obtida assim, mediante artifício, não passou de um prazer (Livro I, cap. 30). Ele não entra pela porta, entra pela janela, e quem entra pela janela, mesmo no quarto de quem o ama, entra calculando.

Paris e a segunda escada

Em Paris, Julien vira secretário do marquês de La Mole, e a regra muda de novo. Em Verrières tudo se media por dinheiro; em Paris, por nascimento e por maneiras. Uma ideia viva, mínima que fosse, parecia grosseria (Livro II, cap. 4).

Nesse salão está Mathilde, a filha do marquês, entediada, orgulhosa, apaixonada pela memória de um antepassado decapitado. Ela decide amar Julien como quem escolhe um papel, e pede que ele suba até o quarto dela, de escada. Julien sobe de pistola na mão, mais assustado do que apaixonado, desconfiado de uma armadilha. Daí em diante vem o vai e volta: um príncipe russo ensina a Julien a receita para conquistá-la, fingir que não se importa, cortejar outra mulher e copiar cartas de amor que o próprio príncipe entregou prontas. O livro chama isso de política russa, que não é política de Estado, é política de sedução. E o narrador compara as duas mulheres numa frase só: a sra. de Rênal encontrava razões para fazer o que o coração lhe ditava; Mathilde só deixa o coração se comover depois de encontrar boas razões para que se comova (Livro II, cap. 30). Uma ama sem saber que ama, a outra ama a própria coragem de amar.

A carta, o tiro e o júri

Mathilde engravida, o marquês, furioso, acaba cedendo e dá a Julien terras, um nome de nobre, cavaleiro de La Vernaye, e uma patente de tenente. Vermelho, enfim: a farda. Dois dias depois da patente, a vitória já não basta: "já calculava que para ser comandante em chefe aos trinta anos, ao mais tardar, como todos os grandes generais, era necessário ser mais do que tenente aos vinte e três anos" (Livro II, cap. 35).

A vitória não dura dois dias. Para quem vive em campanha, nada basta. Então chega uma carta: o marquês pedira informações sobre Julien à sra. de Rênal, e a resposta diz que aquele homem, pobre e ambicioso, tentou alcançar uma posição e chegar a ser alguém com a ajuda da mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher fraca e infeliz (Livro II, cap. 35). Tudo cai. Julien corre a Verrières, compra pistolas e entra na igreja durante a missa: "[...] atirou uma vez e errou; atirou uma segunda vez, ela caiu." (Livro II, cap. 35) Ela sobrevive, ferida, e ele é preso.

No julgamento, recusa a defesa que o advogado sugere e acusa o tribunal: "Senhores, não tenho a honra de pertencer à sua classe, os senhores veem em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua sorte." (Livro II, cap. 41) O júri o condena à morte.

A cela

É na cela que o livro vira do avesso. Julien perde a ambição de uma vez: não pensa mais em Paris, nem em Mathilde, nem na farda. Só pensa em Vergy, a casa de campo dos Rênal, e nos passeios no bosque, e ele mesmo estranha o que sente: "é estranho que eu só tenha conhecido a arte de gozar a vida depois de ver seu termo se aproximar" (Livro II, cap. 40). A sra. de Rênal vem vê-lo, os dois se perdoam, e ele diz: "Nunca terei sido tão feliz." (Livro II, cap. 43) O que acontece nessa cela, e por que o desfecho é tão discutido, tem artigo próprio: o final de O Vermelho e o Negro.

A história real por trás do romance

Nada disso foi inventado do zero. Em 1827, um ex-seminarista chamado Antoine Berthet atirou na antiga amante dentro de uma igreja, durante a missa. Ela sobreviveu, como a sra. de Rênal. Ele foi julgado e guilhotinado em Grenoble, a cidade natal de Stendhal, em fevereiro de 1828. Stendhal leu o caso no jornal, e o que ele acrescentou foi tudo o que o processo não tinha: a ambição de Julien, os salões de Paris e o discurso ao júri.

Quem é Julien Sorel, e por que ele finge

Julien é um rapaz capaz, desprezado em casa, que acredita na promessa do tempo dele: a de que cada um pode se fazer sozinho. Ele não é hipócrita por natureza. Aprendeu que, no mundo dele, quem baixa a guarda perde, e por isso finge, até o dia em que o fingimento deixa de ser escolha e vira método. Para o retrato completo do personagem, veja quem foi Julien Sorel.

A aula resume o dilema numa frase do professor José Monir Nasser, de uma aula dele sobre o romance: ser someone ou something, ser alguém ou ser uma coisa, uma pessoa ou um papel. É um dos eixos da obra, e é o ponto de partida de ser alguém na vida: o que Julien Sorel quis e perdeu.

O vídeo propõe ainda uma imagem para fechar o romance entre duas pinturas. O desejo de Julien caberia na Coroação de Napoleão, de David, pintada entre 1805 e 1807: um general nascido na Córsega coroando a imperatriz Josefina. Na aula isso vem como leitura de quem imagina o que passaria pela cabeça de Julien, e não como dado do romance: o livro não diz que ele conhecesse o quadro. E o fim dele, sentado numa cela, sem farda que valha e sem nada mais a conquistar, lembra o Napoleão em Fontainebleau, de Delaroche, o imperador largado numa poltrona, de botas sujas, no meio de um luxo que já não serve para nada.

O que o livro mostra, e o que deixa em aberto

O Vermelho e o Negro não condena a ambição, e também não a absolve. O que o romance mostra é um rapaz que acreditou na promessa do seu tempo, a de que cada um pode se fazer sozinho, e que fracassa apesar de todo o talento e de todo o esforço. O fracasso dele não está na queda: está em ter passado a vida inteira em campanha, sem perceber que a felicidade que teve aconteceu nas horas em que deixou de fingir.

Isso acontece conosco também. Estamos num jantar bom, numa conversa boa, e uma parte de nós continua contando pontos: se causamos boa impressão, se dissemos a coisa certa. Quando voltamos para casa, a noite passou e nós não estivemos nela.

Como ler

Duas partes costumam travar o leitor: os primeiros capítulos, que parecem crônica de cidade pequena, e o vai e volta amoroso do segundo livro. Elas e o jeito de atravessá-las estão em O Vermelho e o Negro é bom? Onde o livro trava. E, se você ainda não escolheu a edição, a que o Nous usa nas citações é a da Penguin Companhia, na tradução de Raquel de Almeida Prado, assunto de Qual tradução de O Vermelho e o Negro ler?.

Para guardar

Uma época fechou a porta, e um rapaz escolheu entre a farda e a batina. Numa noite de jardim, por alguns minutos, ele esqueceu de fingir. No seminário, a hipocrisia virou método, e Julien subiu por duas escadas até duas janelas. A vitória não durou dois dias. E só numa cela ele deixou de fingir e foi feliz. O que o livro deixa com quem lê é a pergunta que a aula não resolve: dá para deixar de fingir antes da cela, no meio da vida, com tudo ainda em jogo?

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Perguntas frequentes

Do que trata O Vermelho e o Negro?

De Julien Sorel, um rapaz pobre e brilhante de dezoito ou dezenove anos que, numa França em que os bons lugares dependem de nascimento, dinheiro e proteção, tenta subir pela batina, pelos salões e pela sedução. Ele trata a vida inteira, até o amor, como uma campanha militar a vencer, e só é feliz nas raras horas em que esquece de fingir.

Quem escreveu O Vermelho e o Negro?

Stendhal, pseudônimo de Marie-Henri Beyle, romancista francês nascido em Grenoble em 1783 e morto em Paris em 1842. O livro saiu em 1830, e o subtítulo, Crônica de 1830, avisa que o romance retrata a França daquele momento.

Qual é a sinopse de O Vermelho e o Negro?

Filho de um carpinteiro dono de serraria, Julien lê escondido o Memorial de Santa Helena e sonha com a carreira de Napoleão. Preceptor na casa do prefeito de Verrières, torna-se amante da sra. de Rênal, é mandado ao seminário de Besançon, vira secretário do marquês de La Mole em Paris e conquista a filha dele, Mathilde. Uma carta o derruba: ele atira na sra. de Rênal durante a missa, é julgado e condenado à morte, e na cela descobre a felicidade.

O que significam o vermelho e o negro do título?

O livro nunca explica o título, mas a leitura que ilumina o romance é esta: o vermelho é a farda, o caminho que Napoleão usou para chegar ao poder e que se fechou depois de 1815, e o negro é a batina, o caminho que sobrou a um rapaz pobre e ambicioso.

Quem foi Julien Sorel?

O protagonista do romance: filho de um carpinteiro, admirador de Napoleão, que vive a vida como campanha e entra nas casas pela janela, calculando. Não é hipócrita por natureza, mas aprendeu que, no mundo dele, quem baixa a guarda perde.

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