Na tradição fundada em Mileto, o discípulo tem o direito, e o dever, de refutar o mestre, desde que com um argumento melhor. É esse hábito, mais do que qualquer resposta sobre a água ou o ar, que os historiadores reconhecem como o verdadeiro nascimento da filosofia.
Três gerações, três correções
Tales disse que o Arché, o princípio de tudo, era a água. Seu discípulo Anaximandro discordou: se a água, fria e úmida, fosse o princípio, ela jamais poderia gerar seu contrário, o fogo, quente e seco, e um elemento acabaria devorando os outros com o tempo. Anaximandro propôs então o ápeiron, o ilimitado. E o discípulo de Anaximandro, Anaxímenes, discordou por sua vez, voltando a um elemento concreto, o ar, mas acrescentando o que faltava aos dois anteriores: um mecanismo, a rarefação e a condensação, capaz de explicar como o princípio único vira a variedade de coisas que existem.
Repare no padrão: numa única cidade, em três gerações, cada aluno corrigiu o professor. Não por rebeldia, e sim com um argumento examinável, que qualquer pessoa de fora, sem relação nenhuma com aquele mestre específico, poderia avaliar por si mesma.
O que de fato nasceu ali
Água, ilimitado, ar: as três respostas, hoje sabemos, estão erradas. Se a aula de Mileto fosse só sobre essas três respostas, seria curiosidade de museu. O que esses homens inventaram não foi uma resposta, foi um novo tipo de pergunta, com exigências que ela mesma carrega: que a explicação seja natural, que o mundo se explique pelo próprio mundo; que seja econômica, reduzindo o muito ao um; que traga um mecanismo, de preferência observável; e, acima de todas as exigências, que esteja aberta à crítica.
Não a água, o debate racional
Porque olhe de novo para a sequência: Anaximandro corrigiu Tales, Anaxímenes corrigiu Anaximandro. Numa cidade, em três gerações, nasceu a coisa mais preciosa que a inteligência humana já produziu: uma tradição em que o discípulo tem o direito, e o dever, de refutar o mestre com um argumento melhor. Não a obediência a uma autoridade, mas a submissão de todos, mestre e aluno, a uma instância mais alta que os dois: a razão que qualquer um pode examinar. Esse é o verdadeiro Arché da filosofia e da ciência. Não a água. O debate racional.
Toda vez que você recebe uma afirmação, de uma manchete, de um especialista, de alguém que admira, e em vez de engolir você pergunta "por quê? qual é a razão disso?", você repete, sem saber, o gesto de Mileto. E existe uma inquietação silenciosa em muita gente séria: será que eu penso por conta própria, ou apenas repito, com voz firme, o que ouvi de fontes que me pareceram confiáveis? Essa inquietação, quando aparece, não é motivo para desconfiar de tudo e se fechar no ceticismo. É o convite para habitar aquilo em que você acredita porque passou pelo seu próprio crivo, e não porque estava simplesmente no ar que você respirou. Uma convicção examinada é sua de um jeito que a herdada nunca é.
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Por que o discípulo deve refutar o mestre, na tradição de Mileto?
Porque o que aqueles filósofos fundaram não foi uma resposta certa, foi um método: a submissão de todos, mestre e aluno, a uma instância mais alta que os dois, a razão que qualquer pessoa pode examinar. Anaximandro corrigiu Tales com um argumento, e Anaxímenes corrigiu Anaximandro do mesmo modo.
Qual é o verdadeiro Arché da filosofia, segundo essa tradição?
Não é a água, nem o ar, nem o ilimitado. É o debate racional em si: a tradição em que uma explicação só vale enquanto resiste ao exame, e cede lugar a uma explicação melhor quando alguém apresenta um argumento mais forte.
O que distingue essa tradição da simples obediência a uma autoridade?
O fato de que nem o mestre está isento de exame. Mestre e aluno se submetem igualmente à razão examinável. Não é a palavra de quem ensina que decide o que é verdadeiro, é o argumento que resiste à crítica.
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