Timeu, de Platão: resumo e como ler

Aula de origem: F&T 3.5 - Timeu, de Platao

O Timeu, de Platão, é o diálogo em que o filósofo tenta responder a uma pergunta que a maioria de nós se faz em silêncio: por que existe um mundo, e não o caos? A resposta dele é uma das mais bonitas que a Antiguidade deixou, e também uma das mais difíceis de ler. Este resumo segue o livro na ordem em que ele acontece, explica as ideias que mais intrigam (o artesão, o receptáculo, os sólidos, os olhos) e termina com um conselho prático: o que pular, e o que ler devagar.

Um livro que você já viu, sem saber

Existe um afresco famoso, pintado por Rafael no século XVI e hoje nos Museus do Vaticano, em Roma, que quase todo mundo já viu. No centro, dois homens caminham lado a lado. O mais velho aponta o dedo para o céu e carrega um livro na outra mão. É Platão, e o título do livro está à vista. Não é a República, nem o Banquete, as obras mais conhecidas dele. É o Timeu. O mais jovem estende a mão com a palma virada para baixo: é Aristóteles. O que cada um tem na mão e no gesto é assunto de o que é a Escola de Atenas, de Rafael, e voltamos ao afresco no fim.

A cena: Sólon, o Egito e uma ilha

O diálogo começa com Sócrates lembrando uma conversa da véspera, sobre como seria a cidade ideal, muito parecida com a da República. Ele diz que gostaria de ver essa cidade em movimento, como quem vê um animal pintado e quer vê-lo andar. Crítias, um dos convidados, responde com uma história: o legislador Sólon a teria ouvido de sacerdotes egípcios, séculos antes. É daí que sai a ilha de Atlântida, contada como exemplo da cidade ideal em ação. Esse trecho tem artigo próprio, Atlântida existiu? O que Platão escreveu no Timeu, porque o assunto do livro é outro. Sócrates quase não fala mais, e quem assume a palavra é Timeu, o astrônomo, que vai contar a origem de tudo.

Tudo o que nasce tem uma causa

Timeu parte de uma distinção que já aparece em Platão e o Mundo das Ideias: há o que sempre é e nunca muda, que se alcança pela razão, e há o que sempre muda e nunca chega a ser de todo, que se alcança pelos sentidos. O rio que você vê muda a cada dia, mas o que faz dele um rio, não. Este mundo, que vemos e tocamos, pertence ao que muda. E tudo o que vem a ser precisa de uma causa (Timeu, 27d-28a).

A consequência é o motor do livro, e logo vem uma advertência que diz muito sobre ele. Descobrir o autor e pai do universo é tarefa difícil, e, descoberto, é impossível comunicá-lo a todos (28c). Por isso Timeu avisa que vai oferecer um relato verossímil, o melhor que um homem consegue sobre um assunto desse tamanho (29c-d). Repare na humildade: o livro mais ousado de Platão sobre a origem do mundo se apresenta como tentativa.

O artesão e o modelo: o kósmos

Quem seria a causa? Timeu dá a ela um nome que vem das oficinas: demiourgós, o artesão, aquele que trabalha e molda a serviço do povo. Pense em um marceneiro fazendo uma mesa. Ele tem a madeira diante de si e tem na cabeça um modelo de mesa, e a mesa será tão boa quanto for o modelo. Do mesmo modo, o artesão do Timeu põe os olhos no que não muda, e por isso o que ele faz é belo (28a). Como o mundo é belo, conclui Timeu, o modelo só pode ser o eterno (29a).

Os gregos tinham uma palavra que carrega essa ideia inteira: kósmos, mundo ordenado, da mesma raiz de cosmético. Para um grego, o universo não é só grande, é arrumado, e é belo por isso. Se você quer saber quem é esse artesão e se ele é "Deus", há um artigo só sobre isso: Platão acreditava em Deus? O demiurgo do Timeu. Adiantando uma ressalva: o Deus pessoal da Bíblia vem muito depois, e o Timeu ainda não fala dele.

Por que existe um mundo: a bondade sem inveja

Aqui está a pergunta que interessa de verdade: por que o artesão fez o mundo? Ele não precisava. A resposta de Timeu é que o artesão era bom, e em quem é bom não nasce inveja de nada. Livre da inveja, quis que todas as coisas fossem o mais parecidas possível com ele (29e). O mundo não existe por necessidade, nem por acaso, nem para satisfazer ninguém: existe porque quem é bom não guarda o bem para si.

Havia uma desordem, um movimento sem regra, e o artesão a levou à ordem, porque achou a ordem melhor. Fez do mundo um ser vivo, com alma e inteligência, porque aquilo que tem inteligência é melhor do que aquilo que não tem (30a-b). A ideia muda a maneira de olhar em volta: se Timeu tem razão, a ordem que você encontra no mundo não foi você que pôs. Ela já estava lá antes de você chegar, e você foi convidado a reconhecê-la. O artigo Por que o mundo foi criado, segundo Platão fica só com essa pergunta.

O tempo: uma imagem móvel da eternidade

Com o mundo pronto, o artesão quis torná-lo ainda mais parecido com o modelo. Só que o modelo é eterno, e uma coisa que nasceu não pode ser eterna do mesmo jeito. Então ele fez a coisa mais próxima possível: uma imagem móvel da eternidade, que é o que chamamos de tempo (37d). Os dias, as noites, os meses e os anos não existiam antes do céu, nasceram junto com ele, e o Sol, a Lua e os planetas foram postos para marcá-los, como os ponteiros de um relógio (38b-c).

Daí Timeu tira uma consequência quase gramatical. Do que é eterno só cabe dizer que é: dizer que era ou que será é aplicar a ele algo que só vale para o que passa (37e-38a). É uma ideia que um homem nascido no norte da África, no século IV, vai levar muito a sério. Para o que ele fez com ela, veja O que é o tempo em Santo Agostinho, e, do lado de Platão, O que é o tempo para Platão.

A ama de todas as coisas: o receptáculo e a chóra

Timeu percebe que falta alguma coisa na conta. Se há o modelo eterno e a cópia que vemos, onde a cópia acontece? Onde as formas aparecem? Ele propõe um terceiro tipo de coisa, uma das ideias mais estranhas do livro: o receptáculo, a ama de leite de tudo o que nasce, aquela que acolhe e cria (49a).

Não é fogo, nem água, nem terra, nem ar. Não tem forma nenhuma, e é justamente por isso que pode receber todas as formas. A imagem de Timeu é a do ourives: ele derrete o ouro e faz um anel, refunde e faz outra peça, depois outra. Se alguém aponta e pergunta o que aquilo é, a resposta mais segura é dizer que é ouro (50a-b). Timeu dá a esse terceiro o nome de chóra, lugar, e deixa claro o que ele não é: nem matéria no nosso sentido, nem espaço vazio. E fecha com uma imagem de família: o modelo é como o pai, o receptáculo é como a mãe, e o mundo que vemos é o filho gerado entre os dois (50d). A chóra é uma das passagens mais disputadas de Platão, e aqui ela entra como o livro a apresenta, sem tentar resolver a discussão.

Os sólidos e os elementos: um mundo de triângulos

Dentro do receptáculo, como é que as coisas ganham corpo? Aqui Timeu faz uma aposta ousadíssima para o século IV antes de Cristo: a matéria, no fundo, é geometria. Os elementos seriam feitos de triângulos, montados em sólidos perfeitos, e cada elemento tem a sua forma. O fogo é feito de pequenas pirâmides, pontudas, e por isso corta e queima. A terra é feita de cubos, e por isso é firme e fica parada. O ar e a água são feitos de figuras com mais faces, quase arredondadas, e por isso se movem e escorrem com facilidade (53c-56c).

Talvez você lembre dessas figuras da escola. São os cinco poliedros regulares, os únicos sólidos que têm todas as faces iguais, como um dado, e até hoje se chamam sólidos platônicos, por causa deste livro. Quatro deles viraram os elementos. O quinto, que tem doze faces, Timeu usa para desenhar o universo inteiro (55c). Hoje sabemos que a matéria não é feita de pirâmides e de cubos, e nisso Platão errou. Mas a intuição por trás deles atravessou os séculos: Galileu, quase dois mil anos depois, escreveria que o universo está escrito em linguagem matemática.

Por que temos olhos, e a planta ao contrário

No meio de toda essa construção, Timeu faz uma pausa para explicar por que temos olhos. O artesão nos deu os olhos para contemplar o céu. Lá em cima os astros giram em ordem, e, olhando para eles, vamos pondo em ordem o nosso próprio pensamento, que nasce desarrumado (47b-c).

Pense na última vez em que você olhou um céu estrelado com calma, sem pressa, longe das luzes. Aquela calma estranha, difícil de explicar. É a leitura que a aula faz do Timeu: a sua alma reconhecendo uma ordem e se ajustando a ela. E mais adiante vem uma das imagens mais bonitas do livro: o ser humano é como uma planta, só que uma planta ao contrário, com a raiz no céu. A nossa raiz é a cabeça, que por isso fica no alto do corpo, voltada para os astros (90a).

Como entrar no Timeu

O Timeu é o diálogo mais difícil dos que lemos aqui. Depois do começo, ele vira quase um monólogo de astronomia, geometria e medicina antiga, e o que costuma travar são as proporções numéricas com que o artesão compõe a alma do mundo, páginas de frações que parecem não acabar (35b-36b). Quando travar, passe adiante sem culpa: nem os antigos concordavam sobre elas.

O que ler com calma é o discurso de Timeu até o nascimento do tempo e dos astros, e depois o trecho sobre a visão. São as partes mais bonitas e as que mais falam da nossa vida. Se puder, leia numa noite de céu aberto. Uma advertência sobre edições: este artigo não reproduz o texto entre aspas e usa apenas as indicações de Stephanus (27d, 28a, 29e, 37d e as demais), que localizam cada passagem em qualquer tradução que você tenha à mão.

Depois do Timeu: o livro que os cristãos amaram e corrigiram

Durante séculos, até mais ou menos o século XII, o Timeu foi o único livro de Platão que o Ocidente conseguia ler, e nem todos o liam por inteiro. Por muito tempo, dizer Platão era dizer Timeu. Os cristãos viram nele uma ordem vinda de um Deus bom, muito parecida com o início do Gênesis, em que Deus viu tudo o que tinha feito e era muito bom. Mas leram com uma mão no coração e a outra na caneta: aceitaram a bondade que não guarda o bem para si, e corrigiram o artesão, que virou Criador. O artesão de Platão trabalha uma matéria que já estava ali, desordenada. O Deus da Bíblia não encontra nada pronto, e cria até a matéria. Esse caminho tem dois artigos, Platão e o cristianismo: do Timeu ao Gênesis e Deus criou o mundo do nada? O artesão de Platão, além da pergunta que Agostinho levou até o fim, em O que Deus fazia antes de criar o mundo.

Para guardar

O Timeu pega uma ideia que já conhecíamos, a de que existe o que muda e o que não muda, e a transforma numa pergunta sobre o mundo inteiro. Se tudo o que começa tem uma causa, o mundo também tem. Timeu a imagina como um artesão bom, que olhou para um modelo perfeito, pegou uma bagunça e fez dela uma ordem, porque quem é bom quer repartir o bem que tem. Desse trabalho nasceram o tempo, que imita a eternidade, uma matéria feita de formas geométricas e até os nossos olhos, para que a ordem do céu arrume também o nosso pensamento.

Volte então ao afresco. Platão aponta para o céu segurando o livro que explica o céu. Aristóteles, ao lado dele, estende a mão para baixo e segura a Ética, um livro sobre como viver aqui embaixo. Foi esse o livro que Rafael pôs na mão de Platão. E a pergunta que fica aberta é esta: se a ordem do mundo já estava aqui antes de nós, quanto do nosso cansaço vem de tentar inventar uma ordem que só precisava ser reconhecida? Se quiser ver o mesmo percurso em outro diálogo de Platão, comece por O Banquete, de Platão: resumo e como ler.

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Perguntas frequentes

O que é o Timeu de Platão?

É o diálogo em que Platão tenta responder por que existe um mundo, e não o caos. Quem fala quase o tempo todo é Timeu, um astrônomo, que conta a origem do universo: um artesão bom olha para um modelo eterno e leva uma matéria desordenada à ordem. Do trabalho dele nascem o tempo, os astros, os elementos e até os nossos olhos.

Qual é o diálogo mais difícil de Platão?

Não existe um ranking oficial, mas o Timeu é, entre os diálogos que lemos na formação do Nous, o mais difícil. Depois do começo, ele vira quase um monólogo de astronomia, geometria e medicina antiga. O que costuma travar são as proporções numéricas com que a alma do mundo é composta, e dá para pular essas páginas sem perder o livro.

Sobre o que fala o Timeu de Platão?

Sobre a origem e a ordem do mundo. Platão parte da distinção entre o que sempre é e o que sempre muda, conclui que este mundo, que muda, tem uma causa, e imagina essa causa como um artesão (o demiurgo) que olha para um modelo perfeito. Ele faz o mundo por bondade, e disso nascem o tempo, os astros, a matéria feita de formas geométricas e a visão.

O que significa kósmos em grego?

Significa mundo ordenado. É a mesma raiz de cosmético: para um grego, o universo não é só grande, é arrumado, e por isso é belo. O Timeu dá a essa ideia uma causa, o artesão que olhou para o eterno.

Por onde começar a ler o Timeu?

Do começo, mas sem se prender às proporções numéricas da alma do mundo: se travar, passe adiante. O que vale ler com calma é o discurso de Timeu até o nascimento do tempo e dos astros, e depois o trecho sobre a visão.

Continue: Platão acreditava em Deus? O demiurgo do Timeu · Por que o mundo foi criado segundo Platão? · Platão e o cristianismo: do Timeu ao Gênesis de Agostinho · Por que Macbeth é "a peça escocesa"?
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