Platão acreditava em Deus? O demiurgo do Timeu

Aula de origem: F&T 3.5 - Timeu, de Platao

Platão acreditava em Deus? A resposta depende do que entendemos por Deus, e o Timeu é o lugar onde ela se vê melhor. Nesse diálogo, Platão fala de uma causa boa e inteligente que leva o mundo da desordem à ordem, e dá a ela o nome de um ofício: o demiurgo, o artesão. O que o Timeu ainda não tem é o Deus pessoal que a Bíblia apresenta, e é essa diferença, mais do que a palavra "Deus", que este artigo percorre.

Uma ressalva antes de começar

A resposta abaixo vale para o Timeu, não para Platão inteiro. Em outros diálogos, como as Leis, ele trata do divino por conta própria, e esse é outro assunto. Aqui ficamos com o livro em que Platão tenta explicar por que existe um mundo, e não o caos, tema do resumo do Timeu.

A pergunta que leva à causa

O raciocínio de Timeu começa com uma distinção que já aparece em Platão e o Mundo das Ideias. Há o que sempre é e nunca muda, e que se alcança pela razão. E há o que sempre muda e nunca chega a ser de todo, e que se alcança pelos sentidos. O rio que você vê muda a cada dia; o que faz dele um rio, não.

Este mundo, que vemos e tocamos, pertence ao que muda. E tudo o que vem a ser precisa de uma causa (Timeu, 27d-28a). É aí que entra a pergunta sobre Deus, e Platão a trata com cuidado. Descobrir o autor e pai deste universo, diz Timeu, é tarefa difícil, e, uma vez descoberto, comunicá-lo a todos é impossível (28c). Por isso ele avisa que oferece um relato verossímil, o melhor que um homem consegue sobre um assunto desse tamanho (29c-d). Quem procura no Timeu uma profissão de fé encontra, antes, uma humildade.

Quem é o demiurgo

A causa recebe um nome que vem das oficinas. Demiourgós é o artesão, aquele que trabalha e molda a serviço do povo: o carpinteiro, o ferreiro, o oleiro. Pense em um marceneiro fazendo uma mesa. Ele tem a madeira diante de si, e tem na cabeça um modelo de mesa. A mesa será tão boa quanto for o modelo.

É assim, diz Timeu, que o mundo foi feito. O demiurgo põe os olhos no que não muda, e por isso tudo o que ele faz desse modo é belo (28a). Como o mundo é belo, o modelo para onde ele olhou só pode ser o eterno (29a). Dois detalhes importam para a pergunta sobre Deus. O primeiro: o demiurgo tem um modelo diante de si, ou seja, ele olha para algo, não cria a partir de si. O segundo: ele trabalha uma matéria, e esse segundo ponto é o que mais separa o Timeu da Bíblia.

Um artesão bom: por que ele fez o mundo

Por que o artesão fez o mundo? Ele não precisava. A resposta de Timeu é das mais bonitas da Antiguidade: o artesão era bom, e em quem é bom não nasce inveja de nada. Livre dela, quis que todas as coisas fossem o mais parecidas possível com ele (29e).

O mundo, portanto, não existe por necessidade, nem por acidente, nem para satisfazer alguém. Existe porque quem é bom não guarda o bem para si. Havia uma desordem, um movimento sem regra, e o artesão a levou à ordem, porque achou a ordem melhor. E fez do mundo um ser vivo, com alma e inteligência, porque aquilo que tem inteligência é melhor do que aquilo que não tem (30a-b). Essa é a parte do demiurgo que mais se aproxima do que muita gente chama de Deus: uma causa boa, inteligente, que ordena por generosidade. É a razão de o Timeu ter sido tão amado por leitores cristãos.

Então, é Deus?

Se por Deus entendemos uma causa boa e inteligente da ordem do mundo, o Timeu diz isso, com a cautela de chamar o relato de verossímil. Se por Deus entendemos o Deus pessoal da Bíblia, que cria do nada, o Timeu ainda não chegou lá. Platão ali não falava de um Deus pessoal, e o Deus pessoal vem muito depois. Por isso a pergunta mais exata talvez seja esta: o que, exatamente, o artesão de Platão faz, e o que ele não faz?

Ele faz três coisas: olha para um modelo perfeito, pega uma matéria desordenada e lhe dá ordem, por bondade. Não faz uma quarta: não cria a matéria. Ela já estava ali.

Como os cristãos leram o demiurgo

Agora imagine esse livro nas mãos de um leitor cristão. Agostinho, o homem do norte da África de quem falamos em O que Agostinho não achou nos livros dos platônicos, conhecia o Timeu e ficou impressionado com o quanto ele soa parecido com o começo da Bíblia: um mundo que teve origem, uma ordem vinda de um Deus bom e, no fim da criação, o mesmo olhar diante de um mundo belo. No Gênesis, Deus viu tudo o que tinha feito, e era muito bom (Gênesis 1,31).

Mas o cristão lê com a caneta na mão. O artesão de Platão trabalha uma matéria que já estava ali, desordenada. A tradição cristã lê o Gênesis de outro modo: o Deus da Bíblia não encontra nada pronto, ele cria do nada, e até a matéria é obra dele. Esse ponto é o centro de Deus criou o mundo do nada? O artesão de Platão.

Sobra uma pergunta que o próprio Timeu deixa aberta: o modelo eterno para onde o artesão olhava, se não estava dentro dele, estava onde? Agostinho responde que as ideias de todas as coisas estão na própria inteligência de Deus. Deus não copia nada: ele conhece o que faz. A resposta completa, e a história de como os cristãos receberam o Timeu, está em Platão e o cristianismo: do Timeu ao Gênesis.

Para guardar

Platão acreditava em Deus? No Timeu, ele acredita numa causa boa e inteligente, que olha para o eterno e leva a desordem à ordem por generosidade. Ainda não fala do Deus pessoal da Bíblia, que cria do nada, e foi justamente nessa diferença que os cristãos aceitaram a bondade e corrigiram o artesão, que virou Criador. Se a ordem que você encontra no mundo já estava aqui antes de você, talvez a pergunta que fique seja menos "Platão acreditava em Deus?" e mais: o que significa reconhecer uma ordem que não fomos nós que pusemos?

As indicações 27d-28a, 28a, 28c, 29a, 29c-d, 29e e 30a-b seguem a paginação de Stephanus, que serve para localizar cada passagem em qualquer edição do Timeu.

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Perguntas frequentes

Platão acreditava em Deus?

No Timeu, Platão fala de uma causa boa e inteligente do mundo, o demiurgo, um artesão que olha para um modelo eterno e leva uma matéria desordenada à ordem. Mas ainda não fala de um Deus pessoal, como o da Bíblia, que cria do nada. Essa resposta vale para o Timeu: em outras obras, como as Leis, Platão trata do divino por conta própria.

O que é o demiurgo de Platão?

É o artesão do Timeu. A palavra grega, demiourgós, nomeia quem trabalha para o povo, como o carpinteiro, o ferreiro e o oleiro. Platão a usa para a causa do mundo: alguém que tem em mente um modelo perfeito e faz o mundo olhando para ele, assim como o marceneiro faz a mesa olhando para a ideia de mesa.

O demiurgo de Platão criou o mundo do nada?

Não. O artesão do Timeu trabalha uma matéria que já estava ali, em desordem, e lhe dá forma. A criação do nada é a correção que a tradição cristã faz quando lê o Gênesis: o Deus da Bíblia não encontra nada pronto, e até a matéria é obra dele.

Por que o demiurgo fez o mundo?

Por bondade. Segundo Timeu, o artesão era bom, e em quem é bom não nasce inveja de nada, por isso quis que todas as coisas fossem o mais parecidas possível com ele. O mundo existe porque quem é bom não guarda o bem para si.

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