Platão influenciou o cristianismo? O caminho dessa influência tem um endereço: o Timeu, o diálogo em que Platão conta a origem do mundo. Foi o livro que cristãos de língua latina leram durante séculos quando queriam saber o que o maior filósofo grego pensava sobre o começo de tudo, e foi nele que Santo Agostinho reconheceu algo familiar. Este artigo segue o livro até Agostinho: o que ele viu ali, o que a fé cristã aceitou, o que corrigiu, e como o Timeu atravessou a Idade Média.
O que Agostinho reconheceu no Timeu
Agostinho nasceu em Tagaste, no norte da África, em 354. Segundo a aula, ele conhecia o Timeu e ficou impressionado com o quanto o diálogo se parece com o começo da Bíblia. Há três pontos de contato, e vale separá-los.
Um mundo que teve origem. O Timeu parte de uma distinção que já aparecia nas aulas anteriores sobre Platão: existe o que sempre é e não muda, alcançado pela razão, e existe o que muda e nunca chega a ser de uma vez, alcançado pelos sentidos. Este mundo que vemos e tocamos pertence ao segundo grupo. Tudo o que vem a ser tem uma causa (Timeu 28a-c), e portanto o mundo também tem. É a primeira coisa que um leitor da Bíblia reconhece: o mundo não é eterno e não se explica sozinho.
Uma ordem vinda de alguém bom. Para Platão, o artesão que pôs ordem no mundo era bom, e quem é bom não guarda o bem para si: quis que tudo fosse o mais parecido possível com ele (Timeu 29e, em paráfrase). O mundo existe, então, por generosidade, não por necessidade nem por acidente. A tradição cristã reconheceu nisso a bondade de quem cria.
O mesmo olhar diante do belo. No Timeu, o mundo é belo porque o artesão olhou para o modelo que não muda (Timeu 28a e 29a). No fim da criação, a Bíblia diz algo parecido: "E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom" (Gênesis 1,31, na tradução de Almeida, Revista e Corrigida). Nos dois textos, o mundo é bom e belo antes de ser útil.
Agostinho não diz que Platão e Moisés são a mesma coisa. Ele percebe, como leitor, que o filósofo pagão chegou perto do início do livro que ele já tinha por sagrado. Para quem quer conhecer o outro livro de Platão que marcou Agostinho, a história é diferente: os "livros dos platônicos" das Confissões eram de Plotino e Porfírio, e esse caminho tem artigo próprio.
O que o cristão lê com a caneta na mão
A aula diz que o cristão lê o Timeu "com a caneta na mão", e a imagem é exata: ele aceita a bondade e corrige o resto. Há dois pontos em que a caneta pesa.
O primeiro é a matéria. O artesão de Platão trabalha com uma matéria que já estava ali, em desordem. O Deus da Bíblia não encontra nada pronto: cria tudo, e até a matéria é obra dele. Essa correção é o assunto de Deus criou o mundo do nada? O artesão de Platão.
O segundo é o tempo. A ideia de que o tempo é uma imagem móvel da eternidade, Agostinho aceita e leva até o fim, e dela sai a resposta famosa a uma pergunta das Confissões, tratada em O que Deus fazia antes de criar o mundo?.
O resultado, como a aula resume, é que os cristãos aceitaram uma bondade que não guarda o bem para si, e corrigiram o artesão, que virou Criador.
O Timeu na Idade Média: o único Platão, e nem inteiro
Há um detalhe de história que ajuda a entender por que esse diálogo pesou tanto. Até mais ou menos o século XII, o Timeu foi o único livro de Platão que se conseguia ler no Ocidente latino, e nem todos o liam por inteiro. Por muito tempo, dizer "Platão" era dizer "Timeu", porque eram poucas as obras dele que se conheciam.
A parte do "nem inteiro" se confirma na história do texto. A tradução latina que circulava era a de Calcídio, do século IV, e ela cobria só a primeira parte do diálogo, até a passagem 53c, justamente onde começa a geometria dos elementos. Outros diálogos, como o Mênon e o Fédon, só chegam em latim a partir do século XII. Quando o cristão medieval pensava em Platão, pensava, portanto, num Platão que falava do começo do mundo e do artesão bom, e que ficava a meio caminho antes da parte mais técnica do livro.
É esse o livro que Rafael pôs na mão de Platão em A Escola de Atenas. Quem quiser ver a pintura com esse olhar encontra o caminho em Escola de Atenas: o que significam os gestos, e quem quiser ler o próprio livro tem o roteiro em Timeu, de Platão: resumo e como ler.
Para guardar
A relação entre Platão e o cristianismo, neste livro, cabe em duas frases. O Timeu deu aos cristãos um modo de olhar o mundo: com origem, ordenado por uma inteligência boa, belo por isso. E os cristãos devolveram ao Timeu o que lhe faltava, um Deus que não trabalha com material alheio. Se a ordem do mundo já estava antes de nós, talvez o cansaço venha de tentar pôr uma ordem que bastaria reconhecer. A aula fecha com essa pergunta, e este artigo a deixa onde ela está.
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Conhecer o cursoPerguntas frequentes
Os Padres da Igreja liam Platão?
Alguns liam, e Santo Agostinho é o exemplo que a aula mostra: ele conhecia o Timeu e se impressionou com o quanto o diálogo soa parecido com o começo do Gênesis. Liam, porém, o que estava ao alcance, e no mundo latino o que havia de Platão era pouco, e o Timeu era a peça principal.
Platão influenciou o cristianismo?
Influenciou a linguagem com que cristãos pensaram a criação: um mundo com origem, ordenado por uma inteligência boa e belo por isso. Mas o cristianismo não nasce do Timeu. Os cristãos aceitaram a bondade do artesão de Platão e corrigiram o artesão, que virou Criador.
O que Platão falou de Jesus?
Nada. Platão morreu por volta de 348 a.C., séculos antes de Jesus. O que existe é a leitura que cristãos fizeram de Platão depois, e o Timeu foi o diálogo mais lido dessa conversa.
O Timeu era conhecido na Idade Média?
Sim, e era quase o único Platão disponível no Ocidente latino até mais ou menos o século XII. Mesmo assim nem todos o liam por inteiro, porque a versão latina que circulava cobria só a primeira parte do diálogo.
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Aula de origem: Timeu, de Platão | Por que existe um mundo, e não o caos